Nosso entrevistado é o psiquiatra Alexandre Ribeiro Wanderley, coordenador do bloco carnavalesco Tá Pirando, Pirado, Pirou
5fev2026 – Por Norian Segatto
Neste episódio entrevistamos Alexandre Ribeiro Wanderley, psicanalista, um dos fundadores e coordenador do bloco carnavalesco Tá Pirando, Pirado, Pirou, do Rio de Janeiro. Alexandre fala sobre a formação do bloco, que já existe há 21 anos e faz interessantes reflexões sobre a ressignificação e o desenvolvimento de novas subjetividades de usuários e familiares da saúde mental por meio das atividades culturais coletivas.
O tema do carnaval deste ano do Tá Pirando é “O cavalo azul do cuidado em liberdade e a chama acesa de Franco Basaglia”, psiquiatra italiano, considerado o pai da reforma psiquiátrica. Alexandre explica que o “cavalo azul”, do título, é uma referência ao cavalo Marco, que de fato existiu, sem, no entanto, ser azul.
O cavalo Marco como símbolo de liberdade e cuidado

Marco, o cavalo, servia desde 1959 ao manicômio de Trieste (Itália), rebocando carrinho de roupa, lixo e diversos outros materiais. Em 1972, já um cavalo idoso e sem forças para o trabalho, foi oferecido para o abate em um matadouro local. Os internos, e Franco Basaglia, ao saberem disso, enviaram uma carta Michele Zanetti, presidente da província de Trieste (o equivalente a um prefeito de cidade) com um apelo pelo destino do cavalo “Marco”. Escrito em primeira pessoa, o cavalo pedia uma aposentadoria digna em vez do abate. O apelo surtiu efeito e Marco ficou até o final da vida sendo cuidado pelos internos do manicômio.
No ano seguinte, Franco Basaglia e sua companheira, Franca, decidiram criar um cavalo alegórico, e um artista plástico, primo do psiquiatra criou a figura de um enorme “cavalo Marco”, azul, construído em madeira e papel marche. Os pacientes decidiram sobre a cor azul , símbolo de liberdade, a cor do céu e ficou decidido que a “barriga” do cavalo levaria bilhetes com desejos, sonhos e pedidos dos internos do hospital psiquiátrico.

No entanto, com cerca de 4 metros de altura, a obra não passava pela porta de saída do hospital, o que a princípio causou enorme frustração nos internos e a inevitável comparação sobre seu próprio confinamento. Em uma atitude ousada, Franco Basaglia, que era diretor do hospital, quebrou o portão com uma cadeira de ferro, permitindo que Marco, o cavalo azul da liberdade, finalmente pudesse sair nas ruas de Trieste.
“Ficamos muito encantados com essa história e ela se tornou o enredo para o desfile desde ano”, conta Alexandre Wanderley na entrevista e mostra como o envolvimento de usuários e familiares (de vários CAPs do Rio de Janeiro) se torna um processo terapêutico e libertador.
Podsin – Diálogos da Psicologia com a Sociedade está em sua quarta temporada, disponível pelas plataformas Spotify e Youtube.