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#68 PodSin: A enfermagem entre o cuidado e o controle

25jun2026 Por Norian Segatto

Surgida no Brasil no século 19 como uma profissão criada para conter os “pacientes”, a enfermagem psiquiátrica, inicialmente ligada à tradição francesa, evoluiu tanto do ponto de vista teórico como prático e revisita constantemente suas práticas.

Para falar sobre essa profissão tão singular e imprescindível, mas ainda por vezes pouco reconhecida, o podcast Podsin – Diálogos da Psicologia com a Sociedade entrevistou Alexander Ramalho, enfermeiro e psicanalista, mestre em saúde mental e atenção psicossocial pela URFJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), supervisor clínico de CAPs, pesquisador do Laps/Fiocruz (Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial, vinculado à Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca), diretor da Abrasme – Associação Brasileira de Saúde Mental e membro da Comissão Intersetorial de Saúde Mental, do Conselho Nacional de Saúde.

Nessa conversa, Alexander falou sobre os desafios dos profissionais de saúde, em particular enfermeiros e enfermeiras diante de situações de emergência; para ele, o cuidado deve estar fundamentado na escuta qualificada, na compreensão da trajetória de vida do usuário e no fortalecimento das redes de apoio comunitárias. Experiências bem-sucedidas de integração entre serviços de saúde mental e urgência, mostram que o conhecimento prévio da história do paciente reduz práticas de medicalização excessiva, contenção física e outras formas de violência institucional.

Um dos principais temas abordados na entrevista foi a crítica à lógica da contenção como resposta automática às crises psíquicas. Alexander reflete sobre a necessidade de substituir a ideia de “conter” pela de “dar continência”, ou seja, acolher o sofrimento por meio de equipes multiprofissionais e de estratégias de cuidado em liberdade. Ele enfatiza que fatores sociais, raciais, de gênero e de classe influenciam diretamente os processos de sofrimento e adoecimento, não sendo eficaz reduzir situações complexas a diagnósticos ou sintomas isolados. Nesse contexto, argumenta que a medicalização muitas vezes silencia experiências de violência, discriminação e exclusão que precisam ser compreendidas e elaboradas, em vez de apenas neutralizadas por medicamentos.

A entrevista também abordou os impactos da racionalidade neoliberal sobre os serviços de saúde mental. Segundo Ramalho, a pressão por produtividade, metas e indicadores tem reduzido o tempo disponível para a escuta e o acompanhamento dos usuários, transformando o cuidado em uma prática burocrática voltada à comprovação de resultados. Ele critica propostas de ampliação da internação compulsória e o fortalecimento de comunidades terapêuticas, defendendo o investimento na Rede de Atenção Psicossocial, na formação de profissionais e em políticas públicas de redução de danos. Para ele, o hospital psiquiátrico não resolve os problemas relacionados ao sofrimento psíquico; a alternativa está na ampliação de serviços territoriais, comunitários e humanizados, capazes de garantir cuidado integral e respeito aos direitos das pessoas em sofrimento mental.

PodSin – Diálogos da Psicologia com a Sociedade, é um projeto do Sindicato das Psicólogas e Psicólogos de São Paulo. Os episódios do podcast estão disponíveis pelo Spotify e no canal de Youtube do SinPsi.  

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