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Dia da Consciência Negra e o convite à reflexão: o que é coisa de preto?

O Dia da Consciência Negra lembra a data da morte de Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo dos Palmares, perseguido e morto em 20 de novembro de 1695. A data foi incluída no calendário escolar nacional em 2003. Em 2011, a Lei 12.519 instituiu oficialmente a data como o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, depois de muita luta, resistência e persistência do povo negro. Entretanto, a data de 20 de novembro é feriado apenas em algumas cidades brasileiras.

No país em que a escravidão se perpetuou por mais de 300 anos, se naturalizou, infelizmente, o discurso opressivo contra a população negra. Vale lembrar da luta de Dandara, mulher negra e heroína para o povo brasileiro, assim como tantas outras mulheres negras brasileiras no mundo, que lutam para viver o dia a dia.

O SinPsi desenvolveu a ilustração deste 20 de novembro com base no factual – semana passada foi divulgado anonimamente vídeo em que o âncora do Jornal da Globo, o jornalista William Waack, faz uma fala de cunho racista sem saber que estava sendo filmado: “É coisa de preto”, sobre um motorista que passava buzinando e incomodando o jornalista. O homem ao seu lado concorda, sem demonstrar indignação com o comentário. Esse ato de conveniência reforça o racismo estrutural que existe no Brasil. Declaração infeliz e criminosa desse senhor branco e racista. O Brasil é racista e Waack é um produto bem feito do projeto politico de branqueamento, em que a meritocracia reina.

Mas, discutindo o racismo nos lugares onde estamos, vale o questionamento: o que seria coisa de preto?

Estar em cargo de liderança e confiança não é coisa de preto, e estar nas ruas fazendo manifestação sim. No Brasil, um pais de histórias de manifestações de rua, um pais de lutas históricas de trabalhadores, coisa de preto é ser assassinado por conta da cor.

Lidar com o enfrentamento ao racismo é olhar para a questão racial todos os dias. É saber que a população negra ouve isso todos os dias nas ruas do país. Mulheres e homens negros que estão na luta diária necessitam ficar 24 horas por dia com os sistemas simpático e parassimpático alertas a todo momento. Como ter saúde mental e física se não temos oportunidade de respirar? Como racializar as discussões, sem ser a “chata que só fala disso”? Como olhar para a luta diária do trabalhador e da trabalhadora? Como saber a cor das pessoas que estão em manifestação, fazendo buzinaço ou panelaço? Qual o lugar de fala de pessoas negras e brancas? Como sanar a falta de reflexão critica? Como saber se no seu espaço de trabalho tem ou não pessoas negras?

Sim, ser sindicalista é coisa de preto. Assumir pautas e lados é coisa de preto. É coisa de preto porque tem luta de rua, porque tem atendimentos, porque tem categoria, tem trabalhador e trabalhadora. É coisa de preto porque tem pautas populares, porque tem patrão e empregado. Porque patrão e empregado têm cor no Brasil.

Mesmo com o fim da escravidão, não houve a inserção do negro na sociedade. Foi mantida a lógica da exclusão, sendo os negros responsáveis por posições subalternas, mal remuneradas, no setor de subsistência, nas quais prevalecem ausência de proteção previdenciária e desrespeito aos direitos trabalhistas. Com a atual Reforma Trabalhista, essa situação vai piorar.
O mês inteiro de novembro é dedicado à reflexão da inserção do negro na sociedade brasileira, mas não é somente no mês de novembro que se deve parar para pensar na pauta das relações raciais, até porque as relações acontecem todo dia, assim como as necessidades básicas de comer ou dormir. Esse momento é importante para evidenciar as contradições que ainda imperam e a necessidade premente de continuar lutando por transformações que alterem concretamente as injustiças assoladoras dos negros no País.

Segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), pelo Sistema Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), os negros eram maioria na População Economicamente Ativa (PEA) nas regiões analisadas:

– Fortaleza: 83,0%
– Recife: 77,7%
– Salvador: 92,4%
– São Paulo: 38,4%
– Porto Alegre: 13,3%

Apesar desse número expressivo, independentemente do peso relativo da população negra, a proporção de negros desempregados é sempre superior a de negros ocupados. Constatou-se também que as formas de inserção dos trabalhadores negros ocupados ainda são marcadas pela precariedade. Mesmo com o crescimento do emprego mais formalizado, a participação relativa dos negros é maior nas ocupações nas quais prevalece a ausência da proteção previdenciária e, em geral, os direitos trabalhistas são desrespeitados.

Examinando os indicadores do mercado de trabalho, observa-se que, em alguns aspectos, as desigualdades raciais e a discriminação de gênero se interseccionam, potencializando a exclusão e o trabalho informal. A situação da mulher negra evidencia essa dupla discriminação.

Esse sistema de opressão e violência, que nega direito, é um debate para brancos e negros, para homens e mulheres, é um debate de pensar os privilégios, é um debate que a branquitude precisa se comprometer a fazer, é um debate que passa pelo pensamento de quem é racista e machista no Brasil.

Pensando na categoria, quantos psicó[email protected] são ou se auto declaram negros?

Novembro também é um mês para pensar o Ano Internacional de Povos Afrodescendentes, observado pela comunidade internacional em 2011, além de destacar a importante contribuição dada pelas e pelos afrodescendentes para nossas sociedades. Propor medidas concretas para promover a sua plena inclusão, o combate ao racismo, a discriminação racial, a xenofobia e a intolerância.

A Década Internacional de Afrodescendentes foi proclamada pela resolução 68/237 da Assembleia Geral e será observada entre 2015 e 2024, proporcionando uma estrutura sólida para as Nações Unidas, os Estados-membros, a sociedade civil e todos os outros atores relevantes, para tomar medidas eficazes à implementação do programa de atividades, no espírito de reconhecimento, justiça e desenvolvimento.

O processo de Durban deu visibilidade às pessoas afrodescendentes e contribuiu para um avanço substancial na promoção e proteção de seus direitos, como resultado de ações concretas tomadas pelos Estados, pela ONU, por outras organizações internacionais e regionais e pela sociedade civil. Ainda assim, apesar de avanços originais, o racismo e a discriminação racial, sejam diretos ou indiretos, de fato ou de direito, continuam a se manifestar em desigualdade e desvantagem.

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