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Livro percorre passos tortos de uma história triste do jornalismo

Vinte anos depois, estudante conversa com personagens da Escola Base, em São Paulo, episódio que ainda deixa marcas em quem trabalhou e em quem sofreu as consequências

São Paulo – Uma velha regra do jornalismo, ou uma regra do velho jornalismo?, estabelece que repórteres têm de gastar a sola do sapato e a ponta do dedo em busca de informações. Isso inclui muito “chá de cadeira” e um bocado de ‘nãos’. Para elaborar um livro-reportagem,  o jornalista paulistano Emílio Coutinho enfrentou os obstáculos, amplificados pela delicadeza do assunto: o caso Escola Base, ocorrido em 1994, quando ele tinha 9 anos.

Caso Escola Base: Onde e como estão os protagonistas do maior crime da imprensa brasileira (Editora Casa Flutuante, 138 páginas, 2016) é o título do livro, lançado em abril, que na abertura traz um texto do professor e psicanalista Felipe Pena sobre as consequências da calúnia e da difamação. “Quem tem a imagem pública manchada pela mídia não consegue recuperá-la. Está condenado ao ostracismo.”

Pior, talvez, que o ostracismo é a fama injusta, como a que alguns dos envolvidos no episódio carregaram, acusados de abuso sexual de crianças, alunos de uma escola localizada no tranquilo bairro da Aclimação, região centro-sul de São Paulo. O caso virou escândalo, com doses explícitas de sensacionalismo – a imprensa, majoritariamente, endossou as denúncias de duas mães e as declarações do delegado e pouco espaço oferecia aos acusados, que passaram a ser perseguidos e tiveram suas vidas destruídas.

No final, todos foram inocentados, mas os traumas permaneceram – e o “caso Escola Base” virou referência permanente de debate e análise nas faculdades de Jornalismo. Pelo que se vê no dia a dia, restam dúvidas se as lições foram aprendidas.

No livro O Jornalismo dos Anos 90, Luis Nassif trata do tema em um capítulo, que ele reproduziu em seu blog, em 2014. “No caso Escola Base, o delegado aparecia falando muito, expondo vastas certezas, e não apresentava fatos objetivos. Limitava-se a mencionar testemunho de meninos de quatro anos. Nas poucas vezes em que foi ouvido,  o proprietário da escola revela genuína indignação”, escreveu Nassif, que à época trabalhava na TV Bandeirantes e resolveu comentar o assunto em sua coluna, normalmente econômica, no Jornal da Noite. “A imprensa deve às pessoas que estão sendo massacradas, no mínimo, um direito de defesa, de procurar versões fora da polícia. Repito: é possível que as pessoas sejam culpadas. Mas é possível que sejam inocentes. E se forem inocentes?”, questionou.

Ainda estudante, Emílio foi atrás dos principais personagens. No início, como conta, tinha apenas o endereço da escola – hoje, um conjunto de prédios – e da antiga residência do motorista da perua, outro acusado. Mas, com muitas idas e vindas, conseguiu localizar todos, inclusive as mães que fizeram as primeiras denúncias. Nem todos quiseram falar.

Ele conversou, por exemplo, com a professora Paula Milhin, única pessoa viva entre os proprietários do estabelecimento. “O que me revolta é ter acontecido o que aconteceu e ter gente que ainda acredita!”, queixou-se ao repórter. “Era um entra e sai de alunos e pais que seria impossível acontecer o que disseram que ocorreu. Será que ninguém veria?” Ela disse ter sido agredida, na delegacia, para confessar os crimes.

Custou para Emílio localizar o delegado Edélcio Lemos, que o tratou rispidamente e não quis dar entrevista. O mesmo aconteceu ao abordar outro delegado, Jorge Carrasco. No livro, o jornalista detalha a busca pelas fontes e os diálogos travados. 

Na parte final, ele publica entrevista feita com o repórter Valmir Salaro, da TV Globo, experiente profissional, especializado em coberturas policiais. “Sou o único jornalista que fala abertamente sobre o caso e admite o erro – já que ninguém faz isso: outros jornalistas, juiz, delegado, promotor, todos estão quietos até hoje”, afirma no livro. Para ele, o episódio trouxe ensinamentos. “Tirei muitas lições: não confiar em ninguém durante uma reportagem”.

“Acredito que este trabalho ajudará estudantes e jornalistas a refletir sobre o poder que temos tanto de construir como de destruir a reputação de um cidadão, uma família e inclusive de um grupo de pessoas, como foi o caso”, diz Emílio, mestrando na faculdade Fiam-Faam e criador do portal Casa dos Focas, voltado para estudantes (“foca” é o iniciante na profissão, segundo o jargão jornalístico).

O livro (que pode ser encomendado pelo e-mail [email protected]) tem o mérito de, mais do que esmiuçar o caso, 23 anos depois, valorizar o trabalho de reportagem e alertar para o risco de apurações malfeitas, precipitadas ou direcionadas. Esse risco é ainda maior hoje, com multiplicação de falsas notícias (fake news) pelas redes sociais – o que, de positivo, vem motivando o aparecimento de grupos dedicados a perscrutar a procedência das informações. Mas as armadilhas continuam.

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