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Por que a Psicologia de Tráfego está inserida no processo da CNH

6mar2026 Por Andrea Figueiredo Fernandes

O Brasil enfrenta há décadas números alarmantes de sinistros no trânsito, com consequências graves como vítimas fatais, pessoas sequeladas e perdas materiais. Em 2023, registrou-se um aumento de 14,6% nos acidentes, totalizando 76.637 ocorrências, das quais 1.908 resultaram em mortes. Mais de 21 milhões de infrações foram contabilizadas em todo o país. Nos primeiros três meses de 2023, 1.347 pessoas perderam a vida em acidentes de trânsito, um aumento de 17,2% em relação ao mesmo período de 2022. Os dados são do Atlas de Violência 2025, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em pareceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

O Atlas constata uma triste realidade: A violência no trânsito, que é uma das maiores responsáveis por mortes no Brasil está em ascensão. As motos, que são hoje uma importante fonte de trabalho e transporte para milhões de brasileiros, transformou-se no sistema complexo do trânsito em uma das maiores responsáveis por tragédias nas vias e rodovias brasileiras, mortes de motociclistas multiplicam-se diariamente. O estudo revela que, mesmo com as campanhas de segurança no trânsito, a exemplo da Década de Ação pela Segurança no Trânsito junto a ONU, os resultados computados estão longe de alcançar as metas estabelecidas.

Outro dado que chama à atenção é a disparidade entre os Estados, no Amapá, no Distrito Federal e no Rio de Janeiro as taxas de mortalidade em sinistros com motocicletas são de cerca de 2,4 por 100 mil habitantes, o Piauí lidera com 21,0, seguido por Tocantins (16,9) e Mato Grosso (14,7). O que significa que um Estado pode ter até nove vezes mais risco de morte em acidentes envolvendo motos do que outro.

O cenário atual brasileiro demonstra retrocessos nas políticas públicas de segurança no trânsito como: Cortes no Fundo Nacional de Segurança e Educação de Trânsito (Funset), Redução da Cide-Combustíveis deixando de investir em infraestrutura, e principalmente um descaso atual com a principal via de acesso à prevenção dos sinistros e mazelas causados pelo estresse, pressão psicológica, assédios morais, comportamentos impulsivos, agressivos, uso de substâncias psicotrópicas devido a cargas horárias abusivas, fadigas crônicas, transtornos mentais e outros males causados pelo setor. Que é o novo modelo da CNH – Carteira Nacional de Habilitação Brasileira, trazendo renovações automáticas sem exames periódicos de prevenção, desconsiderando inclusive os motoristas profissionais que são os mais afetados.

Com base nas análises feitas pelo Atlas da violência nos anos entre 2013 e 2023, as mortes no trânsito são evitáveis, e ações coordenadas entre todos os setores são essenciais para reverter este cenário. É urgente priorizar a segurança no trânsito, os dados do relatório exigem uma reflexão profunda sobre as escolhas políticas e a implementação de medidas eficazes: “Combater a violência no trânsito é um passo fundamental para garantir a vida e o bem-estar de todos os brasileiros”.

Principais causas dos acidentes de trânsito

Alguns analistas atribuem ao condutor (fator humano) a principal causa de acidentes por conta. No entanto, é necessário ter um olhar atento para verificar mais a fundo esse fenômeno.

Os entregadores de aplicativos que utilizam motocicletas e formam o grupo de maior incidência de acidentes, trabalham gerqalmente em condições precárias, sob forte pressão para cumprimento de horários, muitas vezes sem condições de manter sua moto em adequada manutenção, por conta de parca situação financeira, entre outros fatores.

Melhores condições de trabalho, remuneração digna, que não obrigue a pessoa a fazer 14, 15, 16 horas de jornada diária, criação de sindicatos e associações que lutem pelos direitos dos motoboys e das condições de trabalho, aliado a políticas públicas de conscientização sobre os riscos do trânsito, vias bem capeadas, sem buracos, faixas exclusivas para motos entre outras ações do Estado, podem ajudar muito a reduzir os sinistros.     

Atenção à saúde mental dos motoristas

O número de acidentes e mortes, a precariedade das condições de trabalho, trânsito agressivo, pressão financeira entre outros fatores, estão diretamente ligados à condição de bem-estar mental emocional e cognitiva dos motoristas.

Nesse contexto, a Psicologia de Tráfego ganha relevância ao atuar na base do processo de obtenção da CNH e na renovação dos motoristas profissionais que exercem atividade remunerada (EAR). O psicólogo especialista realiza entrevistas preliminares individuais para verificar o estado emocional do motorista, considerando experiências recentes e comportamentos atuais, identificando possíveis incompatibilidades com a condução veicular. Essa ação preventiva do/da profissional de Psicologia que atua no trânsito, é essencial para baixar os níveis de acidentes no país.

A principal missão da Psicologia de Tráfego é promover motoristas mais saudáveis, orientados e conscientes de que são agentes de transformação para um trânsito seguro, menos violento e que proteja a vida humana.

Bibliografia Consultada

• Secretaria Nacional de Trânsito (SENATRAN). Estatísticas de acidentes de trânsito no Brasil, 2023.

•  Observatório Nacional de Segurança Viária. Dados sobre sinistros e causas de acidentes.

• Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (ABRAMET). Relatórios sobre fatores humanos e prevenção de acidentes.

• Polícia Rodoviária Federal (PRF). Estatísticas e campanhas educativas.

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Andrea Figueiredo Fernandes é psicóloga do trânsito e diretora do SinPsi-SP