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Violência contra a mulher: sociedade machista insiste em transformar vítimas em culpadas

Na última sexta (23), durante o ato público que denunciou a omissão dos governos estadual e municipal de São Paulo no combate à violência contra a mulher (leia mais em “A violência contra a mulher não é o mundo que a gente quer”), as feministas chamaram atenção para a lógica absurda na qual a sociedade machista tenta culpar as vítimas pelas agressões e estupros. Nos dias atuais ainda persiste a conturbada ideia de que a mulher é quem “provoca” o homem, é quem “procura” a violência física, moral ou sexual.

As manifestantes lembraram do caso envolvendo duas adolescentes, de 16 e 17 anos, estupradas em agosto dentro de um ônibus por nove integrantes da banda New Rit depois de um show na cidade de Ruy Barbosa, a 308 quilômetros de Salvador (BA). Mesmo sendo vítimas de uma verdadeira barbárie, o fato das jovens terem procurado a banda para pedir autógrafos tem feito com que as adolescentes sejam julgadas, por parcela da sociedade, como “responsáveis” pelo crime, em mais um exemplo da mentalidade machista que joga a culpa do estupro para a mulher.

Os acusados foram presos numa penitenciária em Feira de Santana, mas em pouco tempo conseguiram um habeas corpus porque, na avaliação do Tribunal de Justiça da Bahia, os estupradores “não têm antecedentes criminais e têm residência fixa”. Agora, Alan Aragão Trigueiros, Edson Bonfim Berhends Santos, Eduardo Martins Daltro de Castro Sobrinho, Guilherme Augusto Campos Silva, Jefferson Pinto dos Santos, Jhon Ghendow de Souza Silva, Michel Melo de Almeida, Weslen Danilo Borges Lopes e William Ricardo de Farias respondem ao processo em liberdade.

Estudo do Instituto Promundo revela que 25,4% dos homens afirmaram ter usado violência física pelo menos uma vez e que quase 40% disseram ter usado violência psicológica, pelo menos uma vez, contra sua parceira íntima – incluindo insultos, humilhação ou ameaças verbais. No total, 51,4% desses homens usaram algum tipo de violência.

As feministas cobraram, ainda, seriedade e rigor no julgamento do goleiro Bruno e dos outros acusados pelo assassinato e cárcere privado de Eliza Samudio, em 2010. O goleiro continua preso, mas aguarda resposta de pedido de soltura impetrado pela defesa no Supremo Tribunal Federal para que responda ao processo em liberdade. O julgamento ocorre em meio a diversas trocas de advogados, de estratégias de defesa e de mudança nos depoimentos. Segundo o Tribunal de Justiça de Minas Gerais, 50 defensores já passaram pelo caso.

“Só vencendo o medo de denunciar é que vamos combater essa ideia de culpabilidade. Não podemos permitir que as mulheres, além de sofrer a violência, continuem depois sendo violentadas pelo sistema judiciário”, ressaltou Maria Julia, da Fuzarca Feminista.

”A causa profunda dessa violência é a desigualdade do mundo capitalista, machista e patriarcal. A violência é o pilar da opressão contra as mulheres”, avalia Sônia Coelho, da SOF (Sempreviva Organização Feminista) e da Marcha Mundial de Mulheres.

Para Sônia Auxiliadora, secretária da Mulher Trabalhadora da CUT/SP, a sociedade precisa repensar e analisar cada ato “para perceber quanta violência há no cotidiano e que acaba passando despercebida”, disse a dirigente cutista.

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