19out2026 Por Norian Segatto
A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), entidade que congrega 31 sindicatos de jornalistas em todo o país, emitiu nesta segunda-feira uma nota oficial criticando o modelo de debate realizado pela TV Bandeirantes entre os candidatos a presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Segundo a Fenaj, “o que deveria ser um espaço democrático de confronto de ideias, apresentação de propostas e esclarecimento dos eleitores transformou-se em um espetáculo de provocações, bordões e ataques, em prejuízo da informação e interesse público”.
Para quem não assistiu ao debate

Durante o debate presidencial ocorrido na TV Bandeirantes, o candidato Flavio Bolsonaro assumiu estratégia semelhante a que Donald Trump havia feito no debate dos EUA contra Hilary Clinton: Flavio manteve-se o tempo todo atrás de Lula nas câmeras, fazendo gestos quando o candidato do PT tinha a palavra. Eram dois os objetivos dessa manobra, tentar desestabilizar Lula, e dificultar a edição de material para as redes sociais (os chamados “cortes”, que as duas campanhas e apoiadores de um ou outro candidato fazem). Em 2016, Donald Trump fez a mesma coisa em debate contra a então senadora Hilary Clinton.

Para a Federação dos Jornalistas, “o jornalismo não pode ser refém da lógica do espetáculo, da audiência a qualquer preço ou das estratégias de candidatos que desprezam o diálogo democrático”. Além da postura corporal provocadora e feita para tornar o debate apenas um espetáculo de mídia, a Fenaj criticou que o modelo do debate permitiu que Flávio Bolsonaro não respondesse a praticamente nenhuma pergunta feita pelo seu opositor, sem que houvesse por parte do jornalismo da emissora qualquer manifestação.
O jornalismo sério e comprometido com a informação imparcial não pode servir de “escada” (chargão usado para apoiar a escalada de alguém) para mentiras. Na entrevista ocorrida na Rede Globo no dia 16, Flávio Bolsonaro disparou uma série de inverdades e em nenhum momento foi questionada pela competente jornalista Renata Lo Prete. O site Aos fatos listou uma série de mentiras, inverdades e informações equivocadas proferidas por Flavio Bolsonaro, sem que o jornalismo da Globo fizesse o contraponto para esclarecer quem assistia.
O site Aos fatos listou:
Flávio omitiu que sua campanha quer privatizar as estatais. O candidato prometeu, também, criar um prontuário único para integrar informações de saúde dos pacientes, o que já existe.
- Disse que os repasses de Vorcaro ao filme foram “lícitos”
- A produtora de Dark Horse não prestou contas dos gastos como afirmou o candidato
- Mentiu ao dizer que a PF confirmou a veracidade de um suposto áudio com financiamento de Vorcaro para um documentário sobre Lula
- Mentiu ao dizer que a tentativa de golpe de estado em 8 de janeiro de 2023 se limitou a invasão de prédios públicos
- Mentiu ao dizer que o atual governo é recordista em criminalidade
- Mentiu ao afirmar que no governo Lula houve recorde de empresas fechadas
- Mentiu ao dizer que o Brasil é recordista em firmas que trocaram o país pelo Paraguai
- Mentiu ao dizer que o ministro Flávio Dino entrou sem escolta em uma favela do Rio de Janeiro
- Mentiu ao relacionar a queda dos homicídios em 2019 ao aumentos de emissões de certificados de CAC
- Mentiu ao dizer que o Estatuto do Desarmamento permite que criminosos comprem armas de guerra
- Mentiu ao dizer que a Constituição prevê o direito à legítima defesa
Nota da Fenaj
Diante desses fatos, a Fenaj emitiu a seguinte nota:
A Federação Nacional dos Jornalistas e seus Sindicatos filiados manifestam indignação com a condução e o formato do debate eleitoral promovido pela TV Bandeirantes, na noite do último domingo (18/10). O que deveria ser um espaço democrático de confronto de ideias, apresentação de propostas e esclarecimento dos eleitores transformou-se em um espetáculo de provocações, bordões e ataques, em prejuízo da informação e interesse público.
O jornalismo não pode ser refém da lógica do espetáculo, da audiência a qualquer preço ou das estratégias de candidatos que desprezam o diálogo democrático. Quando perguntas não são respondidas, afirmações falsas deixam de ser confrontadas e argumentos são substituídos por encenações, quem perde é a população brasileira.
Liberdade de expressão não significa liberdade para transformar um debate jornalístico em instrumento de manipulação. E pluralidade não significa conceder às mentiras o mesmo tratamento dispensado aos fatos.
Reconhecemos a trajetória dos profissionais responsáveis pela mediação, mas questionamos a responsabilidade editorial da emissora, a fragilidade das regras e a ausência de mecanismos capazes de assegurar a finalidade do debate. Não basta oferecer tempo igual aos candidatos. É indispensável garantir informações relevantes, fundamentadas e passíveis de verificação.
O jornalismo não pode abdicar de sua responsabilidade de perguntar, confrontar versões, contextualizar acontecimentos e exigir respostas. A neutralidade diante da desinformação não representa imparcialidade. Ao contrário, pode contribuir para sua legitimação.
É grave quando um debate favorece slogans e ataques pessoais, relegando a segundo plano temas fundamentais como saúde, educação, emprego, renda, desigualdade, segurança, soberania nacional, meio ambiente e direitos sociais. O futuro do país exige propostas concretas, não encenações destinadas à produção de cortes para as redes sociais.
Defendemos que as emissoras revejam seus modelos de debates eleitorais, com regras efetivas que assegurem respostas objetivas, intervenção editorial diante de informações comprovadamente falsas e responsabilização pelo descumprimento das normas.
Não se trata de restringir o contraditório ou tutelar o pensamento dos eleitores, mas de assegurar o direito constitucional à informação de qualidade e impedir que a desinformação comprometa a liberdade de escolha.
O Brasil conhece as consequências da normalização da mentira, da violência verbal e dos ataques às instituições democráticas. O jornalismo não pode ignorar essa experiência nem repetir práticas que transformaram a agressividade e a desinformação em instrumentos de disputa política.
Cabe às empresas de comunicação, aos profissionais e às entidades representativas reafirmar os princípios éticos do jornalismo. A informação é um direito da sociedade, não uma mercadoria subordinada aos interesses comerciais ou à busca de audiência.
Reafirmamos nosso compromisso histórico com a liberdade de imprensa, a ética profissional, o direito à informação e a defesa intransigente da democracia.
Debate eleitoral não é entretenimento. Jornalismo não é espetáculo. Democracia não se constrói com mentiras. A sociedade brasileira merece debates à altura de seus desafios. E o jornalismo tem o dever de estar à altura de sua responsabilidade.
Brasília, 19 de outubro de 2026
Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) e Sindicatos de Jornalistas Filiados