Em destaque, Notícias

Laudelina de Campos Melo, uma vida dedicada à luta e emancipação

Em 2023, o governo federal, por meio da Lei 14.635, inscreveu Laudelina no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria

3nov2026 Por Norian Segatto

Laudelina de Campos Melo é um nome ainda pouco conhecido de grande parte do público brasileiro, apesar de seu nome estar no panteão das heroínas da pátria, ter uma incrível história de vida e luta e já ter recebido várias homenagens e documentários.

Laudelina nasceu em Poços de Caldas, em 12 de outubro de 1904, 18 anos depois da abolição formal da escravatura no Brasil. Como muitas meninas negras de sua época (realidade que infelizmente ainda persiste) começou a trabalhar aos sete anos de idade, mas teve que largar os estudos para cuidar de cinco irmãos enquanto a mãe trabalhava. Seu pai morreu em um acidente quando cortava uma árvore, ela tinha 12 anos na época.

Mesmo com pouca educação formal, seu espírito rebelde e contestador logo se manifestou; aos 16 anos foi eleita presidente do Clube 13 de Maio, que promovia atividades recreativas e políticas entre a população negra de sua cidade. A partir daí sua trajetória profissional de política se misturam. Tronou-se empregada doméstica, tendo trabalhado na casa da família Moreira Salles (banqueiros) e de Juscelino Kubitschek. Mudou para São Paulo com 18 anos e com 20 casou com Geremias Henrique, também ativista.

Em 1931 ajudou a fundar a Frente Negra Brasileira, maior associação da história do movimento negro brasileiro, que chegou a ter 30 mil filiados ao longo da década de 1930; em 1936 filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). No mesmo ano, fundou a primeira Associação de Trabalhadoras Domésticas do país, que foi fechada durante o governo de Getúlio Vargas, só voltando a funcionar em 1946, com o fim do Estado Novo varguista.

Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), se alistou para trabalhar como auxiliar de guerra no país. Continuou a trabalhar como doméstica até a década de 1950, sempre militando na defesa de sua categoria profissional e das mulheres e homens negros.   

Em 1961, morando em Campinas, funda a Associação Profissional Beneficente das Empregadas Domésticas na cidade. O ato de fundação contou com a participação de 1.200 empregadas domésticas. A Associação promovia não apenas manifestações políticas, mas bailes, concursos de beleza entre mulheres negras e outras atividades sociais de empoderamento e pertencimento de classe e raça.

A entidade, no entanto, também sofreu perseguição política e, em 1964, teve de abrigar sua sede dentro do diretório da UDN (União Democrática Nacional, partido político de Carlos Lacerda). Laudelina contribuiu para a criação de diversas outras entidades em todo o país, continuou como a principal liderança da Associação até o final dos anos 1960, quando teve de se afastar por problemas de saúde.

Laudelina é considerada uma das pioneiras na junção das lutas anrirascista, de mulheres e da luta por direitos trabalhistas.

Em 1972, a lei 5.859 é o primeiro marco para a regularização da profissão de doméstica; com a promulgação da Constituição de 1988, a Associação torna-se Sindicato das Domésticas, ampliando seu escopo de atuação e luta.  

Laudelina morreu em 1991, aos 86 anos de idade, em Campinas, deixando um legado de luta. Em testamento, ela deixou a casa para ser a sede do Sindicato, em Campinas.

Documentários e exposição

Manifestação em 1992. Foto Lázaro Roberto em exposição no IMS

A trajetória de Laudelina de Campos Melo está em exposição no Instituto Moreira Salles (na Avenida Paulista) até o dia 22 de novembro.
Para quem não tiver a oportunidade de ir, mas deseja conhecer mais sobre a vida dessa grande personagem de nossa história, seguem dicas de documentários:

Laudelina, suas lutas e conquistas

Você conhece Laudelina

Programa de rádio do portal da Câmara dos Deputados

Situação das domésticas no Brasil

Estudo do Dieese faz uma radiografia do trabalho doméstico no Brasil

Neste ano de 2026, o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) publicou um estudo sobre o trabalho doméstico no Brasil com alguns dados estarrecedores:

O Brasil conta com 5,1 milhões de trabalhadoras domésticas

53% são mensalistas e 47% diaristas

68% são negras

76% não têm carteira assinada

65% não tem contribuição previdenciária

O salário médio das empregadas domésticas negras é de R$ 1.274,00

O salário médio das empregadas domésticas negras é de R$ 1.463,00

Na média, recebem R$ 1.353,00, 59% menos do que demais ocupações.