Vitória de Lula tem repercussões que vão muito além da votação histórica
26out2026 Por Norian Segatto
Em 2025, após o Palmeiras perder por 0x3 para a equipe do LDU, no Equador, pela semifinal da Libertadores, o técnico Abel Ferreira declarou que 90 minutos no (então) Allianz Parque era muito tempo. O final do segundo jogo, com o placar de 4×0 para a equipe alviverde, ficou conhecido como a “noite mágica”.
Esse confronto é uma metáfora simplificada do momento que o Brasil vivenciou entre 5 e 25 de outubro, vinte dias que mudaram a história do país. Tudo parecia caminhar para uma estrondosa vitória da extrema direita miliciana, mas a combinação de diversos fatores resultaram na “noite mágica” de 25 de outubro, com Lula se reelegendo pela quarta vez presidente da República, agregando 10 milhões de votos aos que obteve três semanas antes.
Quero enumerar aqui alguns (não todos) fatores que considero essenciais para essa virada.
Mudança na compreensão da campanha – a teoria dos 2Rs
Após o Tsunami eleitoral do primeiro turno, que elegeu uma grande bancada parlamentar e governadores alinhados à direita, tudo parecia perdido, o núcleo dirigente da campanha estava abatido e buscando “a placa do caminhão” que havia atropelado a esquerda. Nos bastidores da coordenação da campanha de Lula, o desânimo era visível apesar das declarações públicas de otimismo.
Diante do desastre iminente, forças populares rapidamente se organizaram para avaliar os erros e o diagnóstico foi preciso: a campanha não soube utilizar as redes sociais e não fez campanha de rua. Redes e Rua, os dois “erres”. Ouvi em uma reunião de lideranças populares alguém dizer que “deRRota”, também se escrevia com dois RRs, para dimensionar que era necessário mudar a estratégia de campanha.
E deu certo. Foi criado o “exército de Lula”, megagrupo de whatsapp que passou a disputar a narrativa nas redes sociais, disseminar conteúdos para furar a “bolha”, denunciar as manobras das plataformas e fake news da campanha adversária.
O segundo R respondeu de pronto: mais pessoas começaram a andar com adesivos e vestes vermelhas, em sinal de apoio à candidatura Lula, e as manifestações organizadas nas grandes cidades aglutinaram milhões de pessoas. A praia de Copacabana se tornou um mar vermelho de alegria e samba; na Paulista, o último ato de rua antes do segundo turno reuniu o maior contingente que a icônica avenida já presenciou, mais de 2 milhões de pessoas lotaram 15 das 17 quadras do símbolo da cidade de São Paulo.
O resgate da camisa verde amarelo também teve efeito positivo na campanha, desarmando o falso confronto entre patriotas e “esquerdistas”.
Efeito já ganhei
Com a vitória acachapante no primeiro turno e a eleição de grande parte dos governadores, a direita arrefeceu um pouco os ânimos, apostando que havia colocado forte cerca no que pejorativamente chama de “curral eleitoral”. Sem segundo turno para governador em São Paulo, Tarcísio de Freitas foi designado pela campanha de Bolsonaro para correr outros estados; o mesmo ocorreu com o príncipe das fakes, o moleque Nikolas Ferreira, acreditando que o eleitorado de Minas já estava lacrado, foi disseminar suas bobagens no Nordeste.
A estratégia se mostrou um desastre. Nikolas manteve sua vocação de fazer m…, publicou um vídeo desrespeitoso em relação ao povo nordestino, enquanto Tarcísio deixou espaço em São Paulo para Geraldo Alckmin, ex-governador do Estado, fazer o trabalho de “formiguinha” e conversar com prefeitos na tentativa de diminuir o estrago do primeiro turno.
Resultado: Lula obteve no Sudeste quase 5 milhões de votos a mais no segundo turno; no país, a votação cresceu em 5.410 municípios, já a campanha de Flávio Bolsonaro obteve melhor votação em apenas 160 municípios em todo o país.
Explode!
O deputado federal André Janones (Rede-MG) teve papel essencial na campanha das redes sociais, coordenando o grupo “exército de Lula” e atuando como um verdadeiro general: mobilizando a tropa, enfrentando o adversário com seu jeito histriônico, dando as “ordens” de como se comportar diante das postagens: “aperta do dedo, compartilha!”, “urgente, urgente!”, “não comente nem divulgue, não dê engajamento”, orientava em um frenético ritmo.
Ligações perigosas
Apesar de a ligação da família Bolsonaro com as milícias do Rio de Janeiro ser conhecida há anos, muita gente desconhecia a folha corrida do primogênito: escândalo da rachadinha, emenda parlamentar para miliciano, envolvimento com o escritório do crime e com mandantes do assassinato de Marielle Franco, a fantástica lojinha de chocolate, fachada para lavar o “cacau”, atuar como advogado para defender o assassino de uma menina de 5 anos de idade, ligações com Vorcaro, o “mermão” de Flávio, sociedade com Willer Tomaz, suspeito de ser um dos operadores da lavagem de dinheiro do crime organizado, enriquecimento, no mínimo, suspeito, com recursos de origem duvidosa, festinhas com prostitutas ao mesmo tempo que se diz evangélico e homem de família e mais uma série de denúncias vieram a público com muita força, fazendo mais pessoas perceberem quem é de fato Flávio Bolsonaro.
Perigo para a democracia – o efeito gangorra
Brasileiro tem suas particularidades, que o torna um povo único e fascinante. Votou majoritariamente em candidatos da direita no primeiro turno, mas tem na defesa da democracia liberal um valor importante; veste verde e amarelo como contraposição aos “vermelhos” (em equivocada analogia contra o “perigo” do comunismo), mas percebe que é a extrema direita que quer solapar a democracia e a soberania do país, entregando as riquezas e recursos naturais aos Estados Unidos.
Para equilibrar essa equação, não é raro que a população acione o efeito gangorra, votar em candidatos conservadores e à direita (como ocorreu para o Congresso e governos estaduais) e, ao mesmo tempo, eleger um presidente que defende os valores democráticos, para “equilibrar” o jogo político. Como cravou Tom Jobim, “o Brasil não é para principiantes”.
Contra tudo e contra todos
O que se viu nessa eleição foi a exacerbação de fenômenos que já ocorreram em outras disputas e a entrada em cena de novos e poderosos personagens. As Big Techs, que já há alguns anos influenciam campanhas ao redor do planeta (como as de Donald Trump em 2016 e 2024 nos EUA) tiveram presença ativa e deletéria para a democracia e o equilíbrio das eleições; houve uma enxurrada de denúncias de interferência ativa da Meta e outras BT na retirada de conteúdos da campanha de Lula, compartilhamento em massa de mensagens pró Bolsonaro, e uma série de tentativas de intervir na eleição a favor da extrema direita.
Essa intromissão reacendeu o debate sobre a necessidade de regulamentação das Big Techs, controle social e transparência sobre a utilização de algoritmos e limites do poder dessas empresas.
Nesse combate, por vezes, o próprio algoritmo “bugou”. Uma amiga postou um pequeno vídeo cuja capa é a bandeira do Brasil. O algoritmo, entendendo tratar-se de campanha pró Flávio Bolsonaro, distribuiu para milhares de pessoas no Facebook. Essa amiga, cujas postagens costumam ter algumas poucas dezenas de curtidas e visualizações, recebeu mais de 16 mil “likes” no vídeo, que na verdade mostrava uma caminhada com as pessoas balançando a bandeira brasileira e entoando “Lula lá”.
6×1 e BETs – o pacote de bondades
Em outra frente, o governo federal abriu a “caixa de ferramentas” com uma série de medidas para ajudar pequenos empreendedores, conseguiu aprovar o fim da escala 6×1, obrigando até o adversário a votar com o governo, promoveu tardiamente o reajuste do Bolsa Família, perdão de dívidas, acenou com o fim da cobrança de passagem de transporte público aos finais de semana e diversas outras medidas de impacto financeiro expressivo para as famílias de menor renda.
O ponto alto, no entanto, a meu ver, foi a proibição das BETs, tanto pelos efeitos como pela simbologia. As casas de apostas foram sancionadas no final do governo Michel Temer, deveriam ter sido regulamentadas no governo de Jair Bolsonaro, mas ficaram livres, leves e soltas, acumularam um enorme poder e praticamente dominaram o patrocínio aos clubes de futebol e inserção publicitária, ou seja, em meio à tormenta da eleição, mexer com elas poderia ser uma temeridade e havia muita dúvida sobre essa estratégia na coordenação da campanha de Lula.
O candidato bancou a medida, ainda no primeiro turno da eleição, denunciando que as casas de apostas estavam destruindo famílias, endividando a população e que clubes de futebol poderiam muito bem atrair outros patrocinadores. Deu certo, boa parte da população aprovou a medida.
O carisma do guerreiro

Todos os fatores elencados acima tiveram seu grau de importância no resultado da eleição, mas tem um que me parece pesar como definidor do voto: apesar da idade avançada (comentei sobre isso em um artigo logo após o final do primeiro turno), do alto índice de rejeição em parcelas da população, o carisma de Lula continua como um grande ativo político: pode-se concordar ou discordar de suas propostas, mas ele transmite sinceridade ao falar, ao contrário de seu adversário, cuja ideias e ação não caminham no mesmo sentido. Acertadamente, a campanha aposentou o uso do chapéu.
Para além das urnas
Quem chegou até aqui na leitura deve estar se perguntando, mas qual é a do título desse artigo? Explico: a vitória de Lula e do campo democrático não impacta apenas os rumos do Brasil e um melhor equilíbrio entre Executivo e Legislativo, tem repercussão mundial.
Na América Latina crava uma trincheira importante diante do avanço da extrema direita, não colocando o Brasil submisso aos EUA; para a Europa, é um alento para as forças democráticas contra o nacionalismo fascista, fato destacado, entre outros, pelo primeiro-ministro espanhol, Pedro Sanches. A vitória de Lula representa, ainda, uma contundente derrota para Donald Trump e sua política de anexação da América Latina e deve ter consequências na eleição de 3 de novembro nos Estados Unidos.
A vitória de Lula e do campo democrático, de forma épica, repercute em todo o planeta.
É preciso estar atento e forte
Entre um personagem que saiu fugido da seca do Nordeste, ganhou a vida como peão de fábrica, tornou-se o principal líder sindical contra a ditadura militar, e depois, tornou-se presidente da República sem esquecer suas origens e outro, filho de político e que desde sempre teve uma vida de playboy e com nebuloso histórico de associação com crimes de diversas origens, o povo consagrou o mito da trajetória do herói tornando Lula o único brasileiro a obter quatro mandatos presidenciais e a figura política mais relevante da história política do país.
No entanto, vencer é apenas um episódio de uma guerra mais longa contra a barbárie que se avizinha. A direita conservadora, fisiológica ou ideológica, tem maioria no Congresso, o governo Trump não aceita derrotas de forma democrática e volta a ameaçar não descartando ações diretas no Brasil. Os tempos são sombrios, mas a esperança venceu uma grande batalha contra o medo e o fascismo. Agora é não recuar, se manter nas ruas e redes e proteger o que foi conquistado na noite mágica de 25 de outubro.