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PodSin – A guerra contra as drogas é guerra contra as pessoas

11set2026 Por Norian Segatto

No episódio #73 do PodSin conversamos com Dudu Ribeiro, historiador, cofundador e diretor executivo da Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas, membro da atual gestão do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas e do Conselho Estadual de Proteção dos Direitos Humanos na Bahia.

Dudu falou sobre racismo, o que faz a Iniciativa Negra, que é muito mais do que a luta antiproibicionista, e o atual debate entre liberação e regulação.

Maconha e racismo

Cigarros Indios, feito à base de cannabis, era vendido legalmente como produto medicinal

A maconha é conhecida no Brasil desde o século 16, com vários nomes como pito de pango, cânhamo, diamba, fumo d’angola, e diversos usos, medicinais, recreativos e comerciais. Em 1783, a coroa portuguesa chegou, inclusive, a criar, no Rio Grande do Sul, a Real Feitoria do Linho Cânhamo, para produzir a substância que era utilizada na produção de velas e cordas de navios. Até as duas primeiras décadas do século passado, ainda se comercializa no país os “cigarros índios”, feito à base de tabaco, cannabis e beladona e vendido em farmácias como produto medicinal.  

Mas a proibição e o estigma sobre a maconha começaram a ganhar mais força no Brasil a partir do final século 19, quando movimentos eugenistas passaram a preconizar o branqueamento da população brasileira; uma das variantes desse movimento foi a criminalização do uso da maconha, associado à cultura africana e aos negros escravizados.

José Rodrigues Doria

Um dos maiores expoentes dessa tese foi o médico José Rodrigues Dória, professor das faculdades de Medicina e Direito da Bahia. Doria utilizava a ciência da época para induzir que o uso da maconha seria prejudicial à saúde, à moralidade e pureza da raça branca, tratava-se, em suas palavras, de uma “vingança inconsciente” dos escravos que trouxeram consigo da África a planta que “escravizaria” os brancos. “A raça preta, selvagem e ignorante, resistente, mas intemperante, se em determinadas circunstâncias prestou grande serviço aos brancos, seus irmãos mais adiantados em civilização, dando-lhes, pelo seu trabalho corporal, fortuna e comodidades, estragando o robusto organismo no vício de fumar a erva maravilhosa, que, nos êxtases fantásticos, lhe faria rever talvez as areias ardentes e os desertos sem fim de sua adorada e saudosa pátria, inoculou também o mal nos que a afastaram da sua terra querida”.

Em 1830, a Câmara Municipal do Rio de Janeiro baniu o uso da substância em locais públicos, com penas de prisão para escravizados pegos pitando a erva. E, em 1938, veio a proibição em nível nacional por meio do Decreto-lei nº 891. Proibição e racismo andam de mãos dadas nessa história.

Liberação ou regulação

Na conversa com o podcast, Dudu Ribeiro comenta os avanços na luta antiproibicionista e explica que os movimentos sempre defenderam a regulamentação do uso da maconha e outras drogas, como forma de política social, saúde pública e até mesmo combate ao crime organizado. Segundo ele, a chamada “guerra às drogas” é uma guerra contra as pessoas, em especial pretos e pobres. Ao encher as prisões com pessoas detidas por estarem portando maconha ou outra substância, o Estado acaba fornecendo mão de obra para o crime organizado, avalia Dudu.

PodSin – Diálogos da Psicologia com a Sociedade está disponível no canal do Youtube do Sindicato e pelo Spotify. Fica aqui nosso convite para você assistir aos episódios cujos temas te interessam, comentar, compartilhar e se inscrever no canal.

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