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Com apoio do SinPsi, Encontro Nacional de Estudantes de Psicologia aborda negritude

Tomando como base a conjuntura política atual, o SinPsi acredita se fazer urgente a aproximação do movimento sindical com estudantes. Dessa maneira, o sindicato apoiou o XXIX Encontro Nacional de Estudantes de Psicologia (ENEP), que aconteceu entre 14 e 21 de agosto, na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), em Cruz das Almas-BA, com o tema “Psicologias para quem? A negritude revolucionando as práticas psis: O Recôncavo convida à ressignificação”.

O apoio trouxe à luz reflexões sobre a atuação profissional logo na primeira plenária do evento. Gabriela Silva (foto abaixo), 24 anos, é aluna do sexto ano de Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos e faz parte da comissão organizadora do Encontro. Para ela, ao contrário dos demais congressos de estudantes, no ENEP, que dessa vez contou com mais de 650 participantese e teve isenção de taxa de inscrição para alunos bolsistas, o participante é sujeito ativo, o que vai de encontro à formação acadêmica, que na maioria das vezes reconhece ser bom o aluno que fica passivo, que não questiona, que não dá trabalho.

“Na prática profissional é exigido, e com razão, que tenhamos uma postura (pró) ativa, principalmente no campo político. Por isso abrimos a possibilidade para que os estudantes de Psicologia opinassem sobre os temas que seriam expostos no ENEP e a maneira como seriam construídos”, conta Gabriela, lembrando que houve divisão de tarefas de limpeza dos espaços utilizados no evento.

Eduarda Rodrigues, 25 anos, estudante do oitavo período das Faculdades Integradas de Ourinhos (FIO), participou pela primeira vez. Pontuou que a temática foi o que mais surtir interesse, por não se falar sobre racismo na formação.

 

“Vivemos o genocídio silencioso da população negra em um país onde o racismo é um dado estrutural. Existe uma negação, um silenciamento e uma invisibilidade do racismo e da violência gerada por ele. Ir para a Bahia, onde a maioria da população é negra, discutir sobre a negritude em um encontro nacional, me mobilizou”, relata.

Mas, para Eduarda, apesar do tema proposto, o evento enfrentou limitações na abordagem sobre racismo. Ela conta que a maior fonte de aprendizado e troca foram as apresentações de trabalhos e os grupos auto organizados de estudantes negros.

“Trocamos experiências e fizemos leituras sobre o tema. O contato com outros estudantes negros me fortaleceu como pessoa negra e reforçou a importância da minha linha de interesse e de estudo dentro da Psicologia, a das relações raciais. Racismo produz subjetividades e causa sofrimento psíquico”, diz. 

Gabriela concorda com Eduarda sobre a limitação na abordagem do tema. Considera retrógrado em um país, onde mais de 50% da população é negra, temas como racismo raramente serem discutidos em sala de aula.

“Mesmo quando é um tema que vai ditar nossas relações profissionais, seja na teoria, seja na prática, independente da linha ou atuação profissional que escolhermos. Por isso, é importante que nós compreendamos e ocupemos os lugares políticos da profissão, para lutarmos pela Psicologia que defendemos: com um real compromisso social e não hegemônica. E o ENEP é um espaço para reivindicarmos pautas sociais e políticas negligenciadas na nossa formação”, afirma Gabriela.

Kilombo Sakhu Sheti

Ao longo do evento, discussões políticas quebram as barreiras dos temas específicos, o que pode permear o engajamento político do futuro profissional de Psicologia.

“Este ano representei os estudantes de São Paulo no 9º Congresso Nacional de Psicologia, em Brasília. Na ocasião, houve forte articulação estudantil, que resultou no aumento do número de vagas para estudantes neste espaço democrático da categoria, visto que a implicação e o compromisso ético e social começam agora, na formação”, lembra Eduarda.

A parceria com o sindicato foi positiva no sentido de divulgar a importância do posicionamento político para estudantes que não têm contato com o movimento estudantil –  e que muitas vezes só têm o CRP como referência profissional.

“Na graduação há uma alienação sobre o entendimento do que é sindicato e o que é conselho. No imaginário de muitos estudantes essas duas instituições são uma só. Acaba que [email protected] psicó[email protected] exigem do sistema conselhos algo que é do sindicato e vice-versa”, critica Eduarda.

Na plenária final, maior espaço deliberativo do movimento estudantil de Psicologia, ficou deliberado para os próximos ENEPs a presença de ao menos uma mesa que contemple a temática racial, independente do tema principal.

Além de tirar os novos nomes da gestão 2017 da Coordenação Nacional de Psicologia, foi anunciada a criação do Coletivo Kilombo Sakhu Sheti, composto por estudantes de Psicologia pretas e pretos. O coletivo vai discutir e interseccionalizar as pautas da negritude, tendo um olhar mais sensível e menos eurocêntrico para a profissão.

“O evento foi muito importante para que eu expandisse a minha consciência racial. Eu tive a dimensão pela primeira vez na vida da força que tem o povo preto unido. Pude sentir na pele e de maneira coletiva a violência causada pelo racismo, pude me ver nos discursos dos meus irmãos de cor”, reflete Eduarda (foto ao lado).

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