Notícias

Hoje, às 19h, todos juntos contra o desmonte da Creche Oeste da USP

Mais um golpe na educação! Após a Reitoria da Universidade de São Paulo (USP) ordenar o fechamento e desmonte da Creche Pré-Escola Oeste, no campus Butantã, a comunidade uspiana está ocupando o prédio desde o dia 17 de janeiro. No dia anterior, sem aviso prévio, sem diálogo e em plenas férias escolares um caminhão de mudança retirava equipamentos e brinquedos da unidade.

Perante esse quadro, os movimentos sociais estão sendo convocados a apoiar a Ocupação Creche Oeste Aberta. Sendo assim, hoje, dia 24 de janeiro, às 19h, haverá um encontro para compor o Fórum de Apoio às Creches da USP, no prédio ocupado, à Av. Prof. Almeida Prado, 1272, no Campus Butantã, USP.

A reitoria recusa o diálogo e não vê mal algum em fechar a Creche Oeste, alegando tratar-se de mera transferência para a unidade Central. O reitor, Marco Antonio Zago, argumenta que creche não deve ser uma responsabilidade do estado, mas do município. Teria dito, inclusive, que as crianças nem iriam se lembrar do endereço desmontado. Será que não, caro reitor? Crianças são seres humanos ou peças com as quais brinca-se de gerir uma universidade do tamanho e de respeito internacional, tal qual a USP? Criança não merece respeito?

As creches da USP, ao todo distribuídas em cinco unidades, são pioneiras na educação infantil no Brasil e reverenciadas internacionalmente. Atendem exclusivamente crianças de quatro meses a seis anos de idade, filhas de funcionários, docentes e alunos da universidade. Não são de responsabilidade municipal, justamente por terem sido concebidas com essa finalidade. Foi um projeto que sempre envolveu muita gente e que cresceu ao longo dos anos.

Após o golpe na unidade Oeste, universidades do Japão, Rússia e EUA já mandaram cartas de apoio. E a ocupação está sendo conduzida por famílias da comunidade, apoiadores externos, crianças estudantes e pela comunidade USP. A participação das crianças tem apoio do Conselho Tutelar, por entender que a creche pertence a elas.

“A unidade golpeada funcionava há mais de 25 anos. Ninguém foi chamado para conversar, ninguém foi avisado. Pais e trabalhadores da creche receberam apenas um comunicado por e-mail durante as férias, dizendo que o que a reitoria está chamando de transferência seria por motivos de otimização de espaço. O fato causou indignação em toda a comunidade uspiana”, comenta mulher que não quis se identificar, com medo de represália. 

Não é de hoje

Mas o desmonte da Creche Oeste não se deu da noite para o dia. Trata-se de um projeto de desmonte que começou em janeiro de 2015, quando a reitoria decidiu que não seriam aceitos alunos novos, causando forte mobilização entre estudantes e pais com filhos maiores. O número de alunos caiu de 100 para 40 desde então. Para a matrícula de 2016 só autorizaram irmãos bebês e filhos de funcionários. Não havia mais como os estudantes matriculares seus filhos na unidade.

“A criança sai de férias deixando brinquedos, esperando retomar suas atividades normais no mesmo local. Houve conversa com o Conselho Tutelar e com a Promotoria da Infância Juventude. A ocupação é defensiva. Mesmo que da mesma rede, cada creche tem sua história particular. Não estamos falando de mercadoria, mas de pessoas”, explica a entrevistada.

Confusão

A reitoria da USP demonstra não saber direito lidar com a situação de imposição que ela mesma criou. Em comunicados via e-mail e Sedex, já mudaram duas vezes o nome da Creche Central, a que vai receber os alunos e profissionais da Creche Oeste, primeiro para Creche Butantã, depois para Creche Cidade Universitária.

No sábado (21), o Diário Oficial divulgou que as unidades de Ribeirão Preto e São Carlos foram transferidas para as prefeituras dos respectivos campi da USP. Antes eram da Superintendência de Assistência Social (SAS) do governo do estado.

Já no domingo (22), às 7h, a Polícia Militar e a guarda universitária aparecerem para acompanhar a construção de um tapume de metal no entorno de todo o prédio da Creche Oeste. O motivo: “entraremos em obras”. Imediatamente as pessoas da ocupação negociaram de deixar sem tapume ao menos um portão para entrada e saída do prédio. E para atos truculentos como esse não se mede esforços. A eficiência foi tanta, que em menos de cinco horas o tapume estava erguido.

Leia abaixo nota divulgada pela Ocupação Creche Oeste Aberta:

NOTA DA OCUPAÇÃO DA CRECHE PRÉ-ESCOLA OESTE DA USP

Escrevemos agora de dentro da Creche Pré-Escola Oeste da Universidade de São Paulo, lugar que estaria, neste momento, pelas ordens da Reitoria da USP, fechado e desmontado. Funcionárias e funcionários do estabelecimento de ensino foram surpreendidos, às 13h de segunda-feira (16/01), durante suas férias, com um informe de que um caminhão de mudança retiraria todos os móveis e equipamentos do edifício, a partir das 14hs daquele mesmo dia. Frente à ameaça de despejo e à falta de diálogo, mantemo-nos aqui mobilizados.

Ao fechamento desta creche, que comporta mais de 100 crianças, dizemos NÃO! Essas crianças NÃO FICARÃO SEM CRECHE. A USP, que também somos nós – a despeito da política do Reitor Zago e do governo do Estado – não ficará sem creche. A ocupação deste espaço foi nossa última alternativa para manter seu funcionamento.

O ato político da ocupação busca preservar um programa modelo de educação infantil, reconhecido internacionalmente. Preserva o direito das crianças à educação; o direito de suas mães e pais a estudarem; o direito das funcionárias e funcionários ao trabalho e ao reconhecimento como educadoras e educadores. Preserva o caráter público da universidade, ao garantir o acesso à educação às filhas e aos filhos de sua comunidade, tendo em vista a falta de vagas no sistema público municipal de ensino. Preserva a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, congregando profissionais, estudantes e pesquisadores de diversas unidades da universidade e recebendo milhares de visitas externas. Preserva o patrimônio material e imaterial da USP, ao defender 35 anos de experiência em educação infantil.

Não foi por nada disso que a Reitoria zelou ao decretar, sumariamente, o despejo da Creche Oeste, de maneira autoritária e irresponsável, sem planejamento nem discussão. A ordem vem após a decisão do Conselho Universitário (CO) de ocupar as vagas ociosas do sistema de creches da USP. Essas vagas passaram a existir desde que foi proibida a entrada de novas crianças, no início de 2015, sem justificativa, no estabelecimento. A decisão do Conselho foi uma dura derrota para Zago que pretendia fechar rapidamente as creches com a saída das últimas crianças. Assim, pretende agora manipular a decisão do CO, retirando vagas ao desmontar todo o edifício. Não aceitaremos tal manobra.

A derrota de Zago não veio de graça. É fruto de dois anos de luta direta contra o desmanche do programa, além de uma luta histórica pelo reconhecimento das professoras como profissionais de educação (hoje seu enquadramento é de “técnicas de apoio educativo”). Zago, nesse ponto, não cumpriu determinação da justiça de reconhecer as profissionais. Respondeu com o fechamento das creches e com o ataque à toda rede de assistência social da USP (Hospitais, Restaurantes e Moradia) – denominando-a “penduricalho”. É todo um modelo de universidade que está sendo implantado, à revelia de sua comunidade e dos interesses da sociedade. Ao longo dos dois últimos anos, pedimos diálogo, entramos na justiça, acionamos a ouvidoria da USP e a Assembleia Legislativa, fizemos relatórios técnicos, atos de protesto e conversas com cada congregação, conseguimos inúmeras moções de apoio das unidades da USP, lutamos para inserir a pauta no CO… Hoje, temos a comunidade uspiana a nosso favor, como demonstra a decisão do Conselho. Ainda assim, a Reitoria permanece intransigente e cada vez mais truculenta. 

Nossa reivindicação com esta ocupação é bastante simples: Queremos que se cumpra a decisão do CO: que as vagas ociosas, existentes no momento da decisão (157) sejam ocupadas, o que implica no retorno das crianças matriculadas na Creche Oeste ao seu local de origem e a entrada de novas crianças em todas as cinco unidades de creches da USP. Para isso, precisamos que a Reitoria abra diálogo. Queremos transparência e democracia! Queremos a retirada da ameaça de despejo da Creche Oeste imediatamente. 

Contamos com o apoio de todos os defensores da educação pública, trabalhadoras e trabalhadores da educação, pais e crianças, para se somarem à organização de mais esta luta!

Ocupação Creche Aberta

Leia também nota divulgada sobre a construção do Fórum de apoio às creches da USP:

A educação infantil brasileira sofreu um duro golpe nesta semana. A Reitoria da USP, de maneira arbitrária, abrupta e irresponsável, fechou a Creche Pré-Escola Oeste, localizada no Campus Butantã. Esta creche tem capacidade para cerca de 100 crianças, e tem uma história de mais de 25 anos. Contra tal atitude, a Comunidade USP, apoiada pelo movimento de mobilização pelas creches da USP, ativo há dois anos, ocupou no dia 17/01 o prédio desta creche para impedir a retirada de seus móveis, equipamentos e, principalmente, seu acervo – um dos mais importantes da história da educação brasileira. Além disso, esse ataque, atrelado à política de desmonte da Universidade, se soma ao duro ataque ao direito à organização sindical na Universidade, face ao pedido de reintegração da Sede do Sindicato dos Trabalhadores da USP (SINTUSP). Ambos os ataques demonstram os interesses da burocracia universitária e da reitoria: elitizar ainda mais a USP e dar mais um passo para o desmantelamento da Universidade Pública e para a privatização. Defender as creches, assim como defender o SINTUSP e sua sede é fazer uma defesa pela luta que travamos por uma educação pública, gratuita e de qualidade para todos.

Precisamos muito da colaboração dos movimentos sociais para manter nossa mobilização. Para tanto, convidamos as companheiras e companheiros que sempre estiveram na defesa da educação para compor um Fórum de Apoio às Creches da USP, em encontro a ser realizado na próxima terça-feira, dia 24/01, na Ocupação Creche Oeste Aberta (Av. Prof. Almeida Prado, 1272, Campus Butantã USP), às 19h.

Pedimos para que, se a entidade não puder estar presente, nos mande moções de apoio com contatos, para iniciarmos a construção de uma Rede de Apoio às Creches da USP.

Clique aqui para ver o evento no Facebook.

Acompanhe a mobilização pelo blog, clicando aqui. E também por esta página do Facebook ou esta.

Confirme presença pelo email [email protected]

Deixe um comentário