No dia 14 de setembro, a Fenaj – Federação Nacional de Jornalistas lançou o relatório técnico Condições de trabalho e saúde mental dos jornalistas no Brasil. O lançamento ocorreu na reunião do CCS – Conselho de Comunicação Social do Senado Federal.
O relatório/pesquisa é o resultado de três anos de trabalho da Secretaria de Saúde e Segurança da Fenaj. “A reforma trabalhista promovida no governo golpista de Temer, a eleição de Jair Bolsonaro, que iniciou uma onda sem precedentes de ataques a jornalistas e a pandemia de Covid-19, criaram um ambiente de estresse e ansiedade muito grande na nossa categoria”, aponta o secretário adjunto da Secretaria de Saúde e Segurança da Fenaj, Norian Segatto, que coordenou a execução da pesquisa e a apresentou na reunião do CCS. Norian Segatto é, também, jornalista do SinPsi.
A pandemia e o pandemônio

O governo Bolsonaro se caracterizou, entre outras mazelas, por um exponencial crescimento de ataques físicos e virtuais a jornalistas, em especial mulheres, o que contribui para o aumento da insegurança no exercício da profissão. Os anos de 2019 a 2022 foram os mais violentos de toda a série histórica acompanhada pela Fenaj desde 1999, contabilizando 1442 ataques diretos ao exercício da profissão, praticamente um por dia durante toda a gestão Bolsonaro, além de milhares de ameaças e ataques pelas redes sociais.

Simultaneamente, a pandemia de Covid 19 castigou severamente a categoria. “Realizamos por dois anos o acompanhamento das mortes por covid e, mesmo cientes de que não conseguimos registrar todos os casos, o Brasil foi o país que teve o maior número de mortes de jornalistas no mundo, mais do que Estados Unidos e Índia, que têm populações muito maiores do que o Brasil”, afirma Segatto.
Logo no início, da pandemia, em abril de 2020, a FIJ – Federação Internacional dos Jornalistas promoveu uma pesquisa que teve a participação de 1.308 jornalistas, de 77 países, para conhecer a percepção em relação aos efeitos imediatos que a pandemia começava a causar. Para 61,25% das respostas, houve aumento na ansiedade e estresse no trabalho; 25,95% relataram perda de emprego ou diminuição dos salários e 22,49% mudanças nas condições de trabalho. Entre os dias 20 de maio de 10 de junho de 2020, a Fenaj realizou uma pesquisa empírica em todo o país para verificar como a pandemia de Covid19 estava afetando os/as jornalistas, detectar ações promovidas pelas empresas de comunicação para proteger seus trabalhadores/as e qual a interferência nas relações de trabalho, como redução de jornada e salário, trabalho em regime domiciliar entre outros aspectos. A Federação recebeu 457 respostas; 55,5% delas identificaram o aumento da pressão no trabalho.
Diante desse quadro, explica Norian Segatto, “sentimos a necessidade de compreender melhor como esses fenômenos estavam agindo na saúde mental dos profissionais de imprensa e passamos a desenvolver esse projeto. Compreendemos o termo ‘saúde mental’ como um conjunto de fatores que contribuem para o bem-estar do ser humano e seu equilíbrio físico e emocional. A ausência ou limitação dessas condições pode causar sofrimento, que acarreta consequências tanto no desempenho profissional como nos diversos aspectos da vida social e privada e seus reflexos psicossociais”.
Dados alarmantes
A partir do projeto formatado, a parceria com a Fundacentro foi um caminho quase natural; com 60 anos de existência, a Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho é um centro de excelência em pesquisas voltadas à saúde do trabalhador.
Realizado entre dezembro de 2024 e outubro de 2025, o estudo Condições de Trabalho e Saúde Mental de Jornalistas no Brasil mostra resultados alarmantes sobre a situação de adoecimento psíquico, sobrecarga e violência no exercício da profissão. A pesquisa, que contou com respostas de 257 profissionais de todo o país, aponta que mais da metade dos jornalistas apresenta sintomas de depressão (50,2%) e quase metade convive com estresse (47,8%) e insônia (47,9%).
Um dado que chama a atenção no estudo é em relação ao assédio moral: foram utilizadas duas metodologias distintas para aferir o assédio nos locais de trabalho e as respostas indicam que de 26% a 37% afirmam ter sofrido assédio moral, enquanto 30,4% relatam ter sido vítimas de cyberbullying.
O estudo também aponta fatores estruturais que ajudam a explicar esse cenário. Cerca de 28% dos jornalistas estão em situação de “alto desgaste” — caracterizada por alta demanda e baixo controle sobre o trabalho — e 61,1% percebem baixo apoio social no ambiente profissional. Mais de 50% dos respondentes afirmam, ainda, trabalhar em jornadas que variam de 40 a 60 horas semanais. Mais de 54% dos respondentes são solteiros/as ou separados/as, dado que enseja uma análise mais detalhada para entender a correlação com a profissão.
Apresentação no Conselho de Comunicação do Senado

O evento organizado pelo CCS contou com a participação da jornalista e analista em Ciência e Tecnologia da Fundacentro, Cristiane Oliveira Reimebrg, e de Norian Segatto. Clique aqui para acessar a íntegra da reunião.
Cristiane apresentou os principais resultados da pesquisa, enquanto Segatto contextualizou o processo de formatação da pesquisa, destacando alguns dos resultados encontrados. A íntegra da pesquisa pode ser acessada pelo site da Fenaj.
Para a presidenta da Federação, Samira de Castro, que também participou da reunião, na condição de conselheira do CCS, os resultados reforçam a urgência de políticas voltadas à proteção da saúde mental dos jornalistas e à melhoria das condições de trabalho. “O cenário exige medidas concretas por parte das empresas de comunicação, além do fortalecimento da negociação coletiva e da implementação de políticas de prevenção aos riscos psicossociais”, completa.
A pesquisa ganha ainda mais relevância no contexto da nova redação da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que trata do gerenciamento de riscos psicossociais no ambiente de trabalho. “A NR-1 pode ser uma chave de oportunidade, mas também uma armadilha para os trabalhadores, à medida em que as empresas podem não fazer efetivamente o mapeamento dos riscos e mudanças necessárias, maquiando com ações de baixa efetividade como a contratação de consultorias e coachings, que pouco acrescentam e, muitas vezes, reforçam a visão de que o problema tem saídas individuais e não coletivas relacionadas aos ambientes de trabalho”.
A segunda fase da pesquisa, qualitativa, está em andamento, e deverá ser concluída em 2027.
Alguns dados apontados pelo estudo
