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Comunidades terapêuticas são denunciadas na CIDH

Comissão Internacional de Direitos Humanos irá analisar as denúncias apresentadas pela Abrasme e Cebes

10ago2026 Por Norian Segatto

No dia 7 de agosto, a Associação Brasileira de Saúde Mental (Abrasme) e o Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) apresentaram na reunião da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), ocorrida em Washington (EUA), denúncia contra as ditas comunidades terapêuticas e o financiamento público que o governo ainda faz para essas entidades. A Abrasme foi representada pela sua presidenta, Ana Paula Guljor e pelo advogado Lucas Arnaud. Clique aqui para assistir a íntegra da sessão da CIDH.

Órgão autônomo da Organização dos Estados Americanos (OEA), a Comissão recebe denúncias de violações de direitos humanos, avalia petições, realiza visitas aos países, emite recomendações aos governos e pode enviar casos para julgamento na Corte Interamericana de Direitos Humanos. Em 2006, a Corte condenou o Estado brasileiro pelo caso Ximenes Lopes. Relembrando: em 1999, Daniel Ximenes Lopes, então com 30 anos de idade e diagnosticado com deficiência mental, foi internado na Casa de Repouso Guararapes, em Sobral (CE), sofreu agressões físicas e tortura, vindo a falecer após três dias de internação. O caso se tornou um paradigma na defesa dos direitos humanos no país.

Denúncias e solicitações

No início da sessão, a Abrasme apresentou um vídeo com depoimentos, reproduções de matérias de jornais e do programa Fantástico, mostrando um pouco do panorama de violação de direitos humanos promovidos por muitas dessas instituições asilares.

Ana Paula Guljor, presidente da Abrasme, lê as denúncias (ao lado, Lucas Arnaud). Reprodução Youtube

A presidente da Abrasme iniciou sua fala afirmando que o objetivo do pedido de audiência não era debater a política nacional de drogas como um todo. “Buscamos particularmente o reconhecimento por esta Ilustre Comissão de que os equipamentos denominados no Brasil de comunidades terapêuticas não são verdadeiramente dispositivos de cuidado para a população usuária problemática de drogas, mas sim instituições que promovem violações de direitos humanos de forma sistemática, estrutural e disseminada por todo o território brasileiro”.

Na sequência fez um breve histórico da luta antimanicomial e da reforma psiquiátrica, que culminou com a promulgação da Lei 10.216, em 2001. No entanto, destacou Ana Paula, “as comunidades terapêuticas possuem outra origem e outra configuração. No Brasil, começaram a surgir no final da década de 1960, em um contexto no qual não existia uma política pública estruturada para pessoas com problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas. Muitas foram criadas por organizações religiosas ou filantrópicas, em propriedades rurais afastadas dos centros urbanos, tendo como fundamentos recorrentes a abstinência, a disciplina, a convivência entre os residentes, o trabalho e a espiritualidade… O acolhimento se transforma em privação de liberdade, a convivência é substituída por disciplina coercitiva e a espiritualidade se converte em imposição religiosa”.

O advogado da entidade, Lucas Arnaud, elencou uma série de denúncias:
1. Condições precárias das instalações.

2. Administração de psicofármacos sem prescrição e por pessoal não habilitado.

3. Práticas de agressões físicas e psicológicas.

4. Obrigatoriedade de realizar trabalhos para as instituições.

5. Práticas de violência sexual contra mulheres e homens.

6. Mortes por espancamento, enforcamento e torturas de diversas ordens.

7. Ameaças e práticas lgbtfóbicas, com “terapias de conversão” de identidade de gênero e orientação sexual.

8. Internação compulsória de crianças e adolescentes, pessoas em situação de rua e indígenas aldeados.

Todas essas denúncias estão fartamente documentadas em relatórios do Ministério Público Federal, da Controladoria Geral da União (CGU), do Conselho Federal de Psicologia e outras entidades.

Na conclusão dessa intervenção inicial, as entidades solicitaram ao CIDH:
A) Reconhecimento público, sobretudo o próximo relatório anual da Comissão e da REDESCA, de que as comunidades terapêuticas no Brasil produzem violações de direitos humanos de forma sistemática, estrutural e disseminada;

B) Que recomende ao Estado brasileiro a suspensão de novos financiamentos e a realização de uma auditoria para revisão de contratos em todos os níveis de governo, com a transferência dos recursos financeiros respectivos à Rede de Atenção Psicossocial;

C) Que solicite ao Estado brasileiro informações completas sobre as comunidades Terapêuticas – quantidade em funcionamento, vagas contratadas, recursos públicos transferidos, quantidade e características das pessoas acolhidas, fiscalizações realizadas, denúncias recebidas e sanções aplicadas;

D) Que recomende ao Estado brasileiro a criação de mecanismos para a transparência das informações sobre comunidades terapêuticas

E) Que siga monitorando a temática por meio de suas relatorias e que considere a realização de visita in loco a Comunidades Terapêuticas, equipamentos da RAPS e serviços de acolhimento comunitário no Brasil.

Posição do governo

Representantes do governo também estiveram presentes na audiência para apresentar a sua versão sobre o tema. Thais Mesquita, encarregada de negócios da gestão do Brasil junto à OEA (Organização dos Estados Americanos), representou o Estado e leu o material produzido pelo Ministério do Desenvolvimento Social.

Thais Mesquita, representante do governo, ao lado de Davi Quintanilha do Ministério dos Direitos Humanos. Reprodução Youtube

Para o MDS, afirmou Mesquita, “toda alegação de violação dos direitos humanos deve ser objeto de apreciação das autoridades”, no entanto, segundo ela, pesquisas realizadas por órgãos independentes, como a Universidade Federal Fluminense, constataram que na maioria das internações é voluntária, que “inexiste padrões generalizados de abusos” e que não há práticas de violação de liberdade.  

Alana Benedetti, representando o Ministério da Saúde, apresentou alguns números para dar a dimensão do trabalho desenvolvido. Ela citou o cadastro de 6.125 CAPs (Centro de Atenção Psicossocial), 993 serviços residenciais terapêuticos, 82 unidades de acolhimento e 2.224 leitos de saúde mental.

Questionamentos

Após a apresentação dos denunciantes e do governo, os integrantes do CIDH passaram a formular perguntas para dirimir algumas questões ou aprofundar aspectos que foram abordados nas intervenções.

Entre as principais preocupações demonstradas estavam os temas relacionados à internação involuntária, violação de direitos de pessoas LGBTQIAPN+, crianças e pessoas em situação extrema de vulnerabilidade, e os mecanismos que o Estado brasileiro adota contra essas práticas.

A conselheira Rosa Maria questionou a representando do Ministério da Saúde sobre os mecanismos de inspeção e quais providências o governo toma quando são identificados casos de violações de direitos humanos.

Javier Palummo, outro membro do CIDH, se mostrou preocupado com os relatos de internações involuntárias, o solicitou esclarecimento de como o Estado brasileiro garante que as permanências sejam efetivamente voluntárias e quais são os resultados efetivos que condicionam o financiamento público para as comunidades terapêuticas.

Edgar Ralón, presidente da Comissão. Reprodução Youtube

O presidente do Conselho, Edgar Ralón, afirmou que as denúncias apresentadas preocupam muito e colocou o CIDH à disposição das autoridades brasileiras para ajudar na promoção dos direitos humanos nesse tema, reafirmando que a proibição ou dificuldade da saída voluntária de uma CT já configura uma violação de diretos.

Próximos passos

A Abrasme e o Cebes irão apresentar de forma mais detalhada os questionamentos formulados pelos conselheiros. Ana Paula Guljor explica esse trâmite:

Ana Paula explica para o site do SinPsi, os próximos passos da denúncia

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