No dia da psicóloga uma reflexão sobre a importância histórica do movimento sindical
27ago2026 Por Rogério Giannini Vice presidente do Sinpsi
Um pouco de história
Os sindicatos surgiram como a contraface da industrialização e do sistema capitalista. Nasceram do confronto direto em um período no qual a organização do trabalho era feita pelas empresas, com pouca ou nenhuma mediação do Estado.
Todos conhecemos os relatos de jornadas de até 18 horas e de pais e crianças de menos de dez anos de idade trabalhando em fábricas. Dar descanso ou limitar a jornada tinha a ver com manter vivo e minimamente produtivo o trabalhador, e não com o reconhecimento de seus direitos.
Greves, revoltas, mobilizações e a politização do movimento dos trabalhadores — com a eclosão de correntes anarquistas, socialistas e comunistas — foram acumulando força na classe trabalhadora, que passou a ser, potencialmente, a classe revolucionária.
A Revolução Bolchevique na Rússia, as duas grandes guerras e a eclosão do nazifascismo são elementos que desembocaram, após a Segunda Guerra Mundial, no reconhecimento e na incorporação dos sindicatos à ordem dos Estados burgueses. Isso ocorreu particularmente nas democracias representativas mais típicas do Ocidente e, principalmente, nos países mais industrializados.
Assim, temos o sindicato como instrumento legítimo de representação dos interesses classistas dos trabalhadores, mas mediado pela regulamentação estatal — da Constituição às normas ministeriais —, que busca enquadrar a atuação sindical em marcos não revolucionários.
Novos (velhos) tempos

A partir da década de 70: o início do desmonte do Estado de bem-estar social, a queda do Muro de Berlim (1989) e a dissolução da União Soviética formam o cenário para o que se chama de neoliberalismo. O novo liberalismo é, de fato, o liberalismo de novo.
O desmonte ou enfraquecimento da legislação protetiva, as novas formas de gestão do trabalho, a automação, a financeirização da economia e uma brutal disputa ideológica pela desmoralização dos sindicatos são elementos cruciais para o aumento da extração de mais lucros em uma ordem econômica globalizada e financeirizada.
E eu com isso?
Como psicólogas, podemos especular que nossa forma de organização, limitada pela legislação vigente, é impactada pela fragilização das políticas protetivas. Temos sindicatos de base estadual e uma federação nacional, a FENAPSI.
Os sindicatos estaduais têm a prerrogativa de negociação das datas-base com os sindicatos patronais. No caso do sindicato de São Paulo, são dez patronais, sendo o SindHosp e o SindHosfil — representantes dos hospitais e clínicas privados lucrativos e filantrópicos, respectivamente — os principais, que englobam o maior número de profissionais psicólogas.
Essa concentração não se traduz em capacidade de mobilização, pois estamos falando de milhares de locais de trabalho em que, comumente, as psicólogas são minoria frente ao conjunto de trabalhadoras. Contribui para a dispersão a multiplicidade de vínculos e modalidades de contratação: público, privado, filantrópico, autárquico, em empresas, Organizações Sociais (OS), concursadas, celetistas e outros, além das formas mais aviltantes de ocultação da relação trabalhista, como o credenciamento, a pejotização ou a simples plataformização.

Nesse emaranhado que chamamos de precarização atuam os sindicatos, que sofreram um golpe certeiro com a reforma trabalhista do governo Temer em 2017 — a mais ampla e profunda desde o estabelecimento da CLT em 1943. Entre outras medidas, a reforma consagrou que o negociado prevalece sobre o legislado e, na outra ponta, extinguiu o imposto sindical.
Sim, se o sindicato historicamente se estabelece como barreira à superexploração com a mediação dos Estados nacionais e mesmo de acordos internacionais (vide convenções da Organização Internacional do Trabalho / ONU), nesta quadra da história ele é a bola da vez para ser enfraquecido e minado objetivamente (pelo sufocamento financeiro, por exemplo) e subjetivamente (quando é apresentado como instituição arcaica, sem papel efetivo ou mesmo um antro de burocratas). Críticas que vêm a torto e a direito.
O que fazer?

O que para Lênin (líder da revolução russa, que escreveu o livro O que fazer) foi uma afirmação, para nós é uma — ou melhor, algumas — indagações e propostas. Observar e analisar experiências locais e internacionais pode nos trazer pistas sobre o que fazer a médio e longo prazo, como a realidade italiana.
Lá existe um acordo sindical nacional que é estendido a todos os trabalhadores. Sob esse “guarda-chuva”, acontecem as negociações setoriais, como a do Serviço Sanitário Nacional (equivalente ao SUS), no qual se encontra grande parte das psicólogas italianas. Mas, destacamos, existe o sindicato nacional dos psicólogos, a AUPI (Associação Unitária dos Psicólogos Italianos), que também estabelece negociações em outros ramos produtivos e realiza contratações diretas.
Claro que a legislação dá sustentação a tudo isso e, apesar de as negociações se darem entre as organizações sindicais e as patronais, o governo tem papel relevante através do Diálogo Nacional Tripartite, onde são discutidos inclusive os dados macroeconômicos. Esse papel é sustentado pelo arcabouço legal italiano. É importante destacar que as negociações locais e setoriais não podem rebaixar os ganhos estabelecidos pela negociação geral.
Aqui, ao contrário, eliminou-se na reforma de 2017 o princípio da ultratividade dos acordos e convenções coletivas; ou seja, a cada ano se começa do zero no que diz respeito às cláusulas sociais, o que gera grande pressão sobre os sindicatos de trabalhadores. Ao término da vigência de uma convenção coletiva, não é apenas que a cesta básica não será reajustada: ela pode ser descontinuada.
É importante pensarmos que, quando lutamos pela jornada de 30 horas e pelo piso nacional, o que fazemos é buscar a proteção do Estado frente à lógica do lucro e da exploração do patronato, amplificada pela atual ordem econômica internacional.
Como conclusão, podemos pensar que revitalizar os sindicatos é tarefa de suma importância. Para isso, são essenciais a filiação e a participação nas assembleias e demais atividades da categoria. Mas também é fundamental a articulação dos sindicatos de psicólogas com os sindicatos majoritários, com as centrais sindicais e com as lutas gerais, como o fim da escala 6×1 e a redução da jornada máxima constitucional para 40 horas semanais.
Evidentemente este é um texto de provocação é um chamado ao debate, que precisa e pode se materializar com o apoio e a valorização da ferramenta sindicato como defensora dos nossos legítimos interesses corporativos. Dia 27 de agosto é dia de comemoração e reafirmação da psicologia e das psicólogas como ciência e profissão fundamental para o povo brasileiro.